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As joaninhas predadoras, aliadas do produtor no combate às pragas
Elen de Lima Aguiar-Menezes
Enga. Agrônoma, Pesquisadora da Enbrapa Agrobiologia
Alice Teodorio Lixa
Enga. Agrônoma, Mestre em Entomologia
André Luis Santos Resende
Engo. Agrônomo, Mestre em Fitotecnia
Desde a década de 60, com a chamada Revolução Verde, o pacote tecnológico da agricultura inclui o uso dos agrotóxicos para o controle de pragas agrícolas. Contudo, apesar da utilização desses produtos químicos ter contribuído para um incremento significativo na produção de alimentos, especialmente grãos, assim como dos avanços obtidos no desenvolvimento de estratégias para o uso mais seguro desses produtos dentro dos princípios do manejo integrado de pragas, a falta de conhecimento ou de acompanhamento técnico sobre o manuseio adequado dos agrotóxicos, com conseqüente aumento no número de pulverizações ou uso de doses acima das recomendadas e não obediência do período de carência, tem contribuído para proporcionar efeitos maléficos sobre o meio ambiente e ao próprio homem. Entre esses efeitos, destacam-se o ressurgimento das pragas-alvo, muitas vezes como resultado do desenvolvimento de resistências das pragas a esses produtos, o surgimento de pragas de importância secundária em função dos efeitos tóxicos desses produtos sobre os inimigos naturais dessas pragas, intoxicação dos produtores rurais, contaminação da água e do solo, impactos negativos sobre os organismos não-alvo, como peixes e abelhas, e presença de resíduos tóxicos de agrotóxicos nos alimentos. Além disso, tem-se a dependência econômica que esses insumos externos podem trazer para os produtores rurais, resultando na sua descapitalização e afetando a sustentabilidade dos sistemas de produção.
Todavia, nos últimos anos, especialmente após a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano (também conhecida como a Cúpula da Terra, ou Conferência Rio-92 ou Eco-92), que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro de 03 a 14 de junho de 1992 promovida pela ONU e que reuniu mais de 170 países, dentre eles o próprio Brasil, a humanidade tem-se mostrado preocupada, de forma crescente, com os problemas de conservação da qualidade do meio ambiente provocados por uma variedade de atividades humanas, incluindo as relacionadas à exploração agropecuária. Essa preocupação tem resultado na busca pelo setor agropecuário de tecnologias para a implantação de sistemas de produção de enfoque ecológico, rentáveis e socialmente justos. Como resposta a essa demanda, a pesquisa científica tem avançado no desenvolvimento de soluções tecnológicas para uma agricultura sustentável, produtiva e ambientalmente equilibrada.
A agricultura sustentável se apóia em práticas agropecuárias que promovam a agrobiodiversidade e os processos biológicos naturais. Infere-se daí que o controle biológico é uma alternativa promissora ao uso de agrotóxicos para o controle de pragas em sistemas agrícolas sustentáveis, visto constituir-se num processo biológico natural de regulação do número de indivíduos da população da praga por ação dos agentes de mortalidade, os quais são também genericamente denominados de inimigos naturais das pragas, os quais agem de forma a reduzir as chances da população da praga, sobre a qual eles atuam, de se tornar numericamente tão alta a ponto de causar prejuízo econômico. Assim, o controle biológico almeja reduzir o nível populacional da praga, mantendo-a abaixo do nível de dano econômico.
Os inimigos naturais das pragas são, portanto, os grandes aliados dos produtores no controle das pragas em suas lavouras. Entre eles estão as joaninhas, as quais são insetos predadores da família Coccinellidae da ordem Coleoptera (que reúne os insetos vulgarmente conhecidos como besouros).
Como as borboletas, as joaninhas passam por diferentes fases até atingir a fase adulta. Assim, desenvolvem-se a partir do ovo, passando geralmente por cinco estádios de larva e atingem a fase de pupa, a qual termina quando emerge o adulto. As joaninhas alimentam-se da presa tanto na fase de larva (Figura 1) como na fase adulta (Figura 2), mastigando as presa e consumindo-as totalmente.
Entre as presas das joaninhas, estão os insetos ácaros fitófagos (que se alimentam de plantas), como os pulgões, as cochonilhas, as moscas brancas e os psilídeos, que danificam uma variedade de plantas cultivadas. As joaninhas também predam ovos e pequenas larvas de coleópteros e lepidópteros (mariposas), os quais reúnem várias espécies de insetos que causam prejuízos econômicos às plantas cultivadas. No caso de joaninhas que predam pulgões, o total dessa presa consumido por uma joaninha pode chegar a 1.000 pulgões, durante toda a sua vida.
Os adultos das joaninhas são notoriamente conhecidos por sua coloração, que geralmente é bastante variada entre as espécies. Os adultos de espécies de cor vermelha, amarela, laranja e brilhantes, sem ou com manchas geralmente pretas, alimentam-se de pulgões (são chamadas de afidófagas), enquanto que as espécies escuras, geralmente pretas brilhantes, alimentam-se de cochonilhas (são chamadas de coccidófagas), moscas brancas e ácaros.
Em geral, as joaninhas depositam seus ovos de forma agrupada e entre ou próximos às colônias de pulgões, facilitando assim o deslocamento de suas larvas que, após eclodirem dos ovos, saem em busca de presas. Uma fêmea de joaninha pode por entre 150 a 200 ovos a cada postura.
Espécies de joaninhas, como Cycloneda sanguinea, Colleomegilla maculata, Eriopsis connexa, Hippodamia convergens e Scymnus argentinus, são tidas como excelentes predadoras naturais de pulgões. A multiplicação de algumas espécies de joaninhas pode ser conseguida em condições de laboratório, usando presa "alternativas" (ovos da traça-da-farinha, por exemplo) no lugar das presas naturais e preferenciais (pulgões, por exemplo). Estudos conduzidos no Brasil mostram que as joaninhas predadoras de pulgões Eriopsis connexa, Colleomegilla maculata e Hippodamia convergens são capazes de serem criadas com ovos da traça-da-farinha (Anagasta kuehniella (Zeller). Como a criação das joaninhas requer cuidados especiais, não é fácil obter sua multiplicação sem contar com empresas ou laboratórios especializados. No mercado brasileiro, é o produtor pode adquirir exemplares de apenas uma espécie de joaninha, Crytolaemus montrouzieri, que foi importada do Chile para o controle de Planococcus citri, conhecida como cochonilha branca dos citros.
Todavia, o produtor pode conservar as joaninhas na sua propriedade e contar com a ajuda das mesmas no controle de pragas. Para isso, alguns requerimentos são necessários para permitir a sobrevivência das joaninhas. Quando a presa preferida está escassa no agroecossistema, ou na presença de uma presa de qualidade inferior, as joaninhas usam principalmente alimentos alternativos, tais como néctar floral ou extrafloral e pólen (Figura 3), para garantir sua sobrevivência. Assim, a ausência desses recursos alimentares alternativos limita a presença das joaninhas nos agroecossistemas. Portanto, a presença de plantas com flores que proporcionem néctar e/ou pólen para as joaninhas, dentro de sistemas de produção agrícola, é uma importante ferramenta para auxiliar na conservação e na multiplicação desses insetos predadores nos agroecossistemas. Além do pólen e/ou néctar, essas plantas podem fornecer outros alimentos alternativos (outras espécies de presas alternativas às presas principais ou preferenciais), locais para acasalamento e postura das joaninhas, e/ou locais de abrigo para larvas, pupas e adultos das joaninhas. Assim, com esses recursos vitais disponíveis, a emigração das joaninhas a partir dos sistemas agrícolas com flores pode ser minimizada. Outro aspecto importante é que como essas plantas podem proporcionar uma fonte concentrada de recurso, elas necessitam tomar somente uma pequena porção da área total destinada ao cultivo comercial para ser efetiva.
Vários estudos, em sua maioria conduzida nos Estados Unidos, Europa e Austrália, mostram que espécies vegetais das famílias Apiaceae (= Umbelliferae), Leguminosae e Compositae têm desempenhado esse importante papel ecológico. Todavia, no Brasil, apesar dos relatos informais, pouco tem sido cientificamente registrado a respeito do papel dessas plantas na conservação das joaninhas, uma linha de pesquisa que vem sendo perseguida atualmente pela Embrapa Agrobiologia (Seropédica/RJ). Dentre os resultados dessa pesquisa, o coentro (Coriandrum sativum L.), o endro (Anethum graveolens L.) e a erva-doce (Foeniculum vulgare Mill.) são três espécies da família Apiaceae que têm se mostrado promissoras na conservação das joaninhas nos agroecossistemas diversificados.
Literatura recomendada:
AGUIAR-MENEZES, E. de L. Controle biológico de pragas: princípios e estratégias de aplicação em ecossistemas agrícolas. Seropédica: Embrapa Agrobiologia, 2003, 44p. (Embrapa Agrobiologia. Documentos, 164).
LIXA, A. T. Coccinellidae (Coleoptera) usando plantas aromáticas como sítio de sobrevivência e reprodução em sistema agroecológico, e aspectos biológicos em condições de laboratório. 77f . 2008. Dissertação (Mestr
ado em Fitossanidade e Biotecnologia Aplicada) - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ.
MEDEIROS, M.A. Papel da biodiversidade no manejo da traça-do-tomateiro Tuta absoluta (Meyrick, 1917) (Lepidoptera: Gelechiidae). 145p. 2007. Tese (Doutorado em Ecologia) - Universidade de Brasília, Brasília, DF.
RESENDE, A. L. S. Comunidade de joaninhas (Coleoptera: Coccinellidae) e aspectos fitotécnicos da couve (Brassica oleraceae var. acephala) em consórcio com coentro (Coriandrum sativum), sob manejo orgânico. 85f. 2008. Dissertação (Mestrado em Fitotecnia) - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ.
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